CRÔNICA DE UM PACIENTE CRÔNICO


É domingo de manhã em Manaus.

Calmon se dirige rapidamente à Drogasil, em busca de seu Rivotril pré-vôo, pois mais tarde visitará a filha no interior de São Paulo. O apego a certas marcas e hábitos é ponto clássico de sua personalidade.

Farmácia, é Drogasil.

Atendente da farmácia, só Alice.

Vôo, só presta LATAM. 

Pasta, só se for Barilla.

Carro, apenas Honda.

Ansiolítico, é Rivotril - o genérico não serve, pois "não faz o mesmo efeito".


Na fila do balcão, Calmon encontra seus vizinhos - a farmácia tornou-se ponto comum de encontro nos dias de hoje. Por que será?

Jaiminho, 60 anos, hipertenso e renal crônico; Lúcia, 58, tabagista e enfisematosa; Bráulio, 63, portador de glaucoma e diabetes; e Calmon, o próprio, 70, ansioso e com fobia de avião. É a trupe da medicina interna, o quarteto fantástico da alopatia, os Unidos da Drogasil.


Como de costume, os quatro atualizam entre si suas respectivas prescrições e problemas de saúde.

Jaiminho tá pré-diabético e terça-feira irá pro nutricionista, amigo do filho. 

Lúcia vai comprar uma bombinha nova prescrita por sua pneumologista - a DPOC deu uma piorada e a fumaça do São João não ajuda, "essa época do ano pra mim é uma porra", diz ela, rouca e desbocada. 

Bráulio tá com triglicérides alto e busca um ômega-3 "do bom, de verdade" - pra ele, os corriqueiros são de mentira; "esse negócio de leve 3 pague 2 não tá com nada, é mesmo que água".


Já o cliente-paciente Calmon, impacientemente aguarda atendimento na fila de prioridade, embora a fila comum ande mais rápido. Pra variar, a farmácia está lotada e há 3 idosos por metro quadrado.

-Isso não tá certo! O idoso é prioridade! Vocês tem que chamar o idoso na fila comum também e aí reveza com quem não é. Que mangue é esse!? Pô, aí não dá, eu vou na Pague Menos. Tô aqui há 20 minutos e menino novo chegou depois de mim e já foi embora - diz ele, 6 minutos após entrar na farmácia.

A gerente franze a testa, também como de costume, mas tenta contornar.

-Calmon, eu te conheço há 6 anos. São 6 anos tu falando a mesma coisa sempre que vem aqui. Fique sossegado que você é o próximo - tranquiliza Jaiminho. 


Jaiminho não esquenta com nada, mas beira a negligência. Tanto que fazia uso irregular dos medicamentos para pressão, até ser descoberta sua insuficiência renal. Toda vez que chega ao balcão, pede a "marca MB" - sua piada habitual.

-Não conheço essa marca não, seu Jaime - diz o farmacêutico.

-É a que for "Mais Barata", meu filho.


Lúcia já é mais disciplinada e obediente à receita: só compra o que tá escrito. Se o médico colocou "Alenia 12/400mcg", ela só compra "Alenia 12/400mcg", faça chuva ou faça sol, não adianta quererem empurrar um laboratório concorrente ou genérico. Mas se o doutor escrever o nome da substância ("formoterol 12mcg + budesonida 400mcg"), ela só compra o genérico, que não consta nome de marca na embalagem.

-Não vai querer levar o Alenia hoje não, dona Lúcia? É a mesma composição: formoterol com budesonida. 

-Não, meu filho. Vou querer o que tá aí. Não aperte minha mente não.


Já o Bráulio pega seus medicamentos de uso contínuo pelo SUS, mas sempre está se atualizando pelos grupos de WhatsApp, muito bem informado.

-Rapaz, você tem magnésio? Mas eu quero aquele do nome estranho... "quelato" (!)... aqueles comuns não, que eu vi que não presta. Vi que é bom pro Alzheimer.

-E o senhor tá com Alzheimer, seu Bráulio? - pergunta o atendente.

-Tô não, meu filho. Mas se tivesse também não lembraria, né? Hehehehehe! Mas vi que é bom pra prevenir, meu irmão me disse.

-Seu irmão é da área de saúde?

-Não, ele é sapateiro. Mas é mais velho que eu e tem uma cabeça ótima! Tu precisa ver...


Eis que chega a vez do senhor Calmon, que pontua:

-Você não é a Alice. Cadê Alice? Aquela mocinha que sempre me atende...

-Oi, seu Calmon! É que a Alice está de férias. Mas como posso te ajudar? - responde Edmilson, novato no pedaço que, embora não conhecesse Calmon, já sabia de sua reputação - ela o precedia.

-Pô, aí é complicado! Uma demora danada pra ser atendido e ainda tem isso. Por isso que esse país não vai pra frente! É sempre uma muvuca!

-Isso o quê, seu Calmon? 


É dia de festival do boi e Edmilson, vulgo Ed, está com seu moicano pintado de azul. Calmon torce pro Garantido, que é vermelho.

-Meu filho, uma camisa ou acessório azul até vai. Mas você me diz que Alice não está e vem me atender com o cabelo todo esculhambado em dia de festival, parecendo aquele boneco de videogame que minha neta gosta... Lonic, Comic...

-Sonic, né!? Hehehe! Fique tranquilo que é só meu estilo mesmo. Eu nem ligo pra festa do boi. Mês passado, por exemplo, meu cabelo tava verde e eu nem sou palmeirense.

-Mas eu sou tranquilo, meu caro. Muito tranquilo. Você sabia que medito 30 minutos todo dia, das 6:10h às 6:40h da manhã?

Lúcia gargalha:

-Aí, Calmon! Cê me desculpe, mano... mas se tu é tranquilo, eu sou a virgem Maria! Huahuahua!

Ed dá um micro riso de canto de boca e continua:

-Entendi. Como posso ajudá-lo?

-Você tem Rivotril de "0,5mg"?

O rapaz imediatamente acessa o estoque da farmácia:

-Temos o genérico, pode ser? Clonazepam da Medley e Aché

-Rapaz, venha cá... se você pedir Heineken num bar, aceitaria que trouxessem Nova Schin? 

Edmilson está com os chakras alinhados, então apenas ri.

-Olha, eu não aceitaria. Mas a depender da situação, Nova Schin tem seu valor. Hehehe! Nem sempre posso pagar por Heineken. E outra: eu tenho prisão de ventre e Nova Schin sempre me ajuda no outro dia. É melhor que Activia! 

-Certo, bom argumento. Mas eu só bebo Heineken, deixe pra lá então. Obrigado, Edmil... Sonic! - olhando pro seu crachá.


O jovem atendente se sai relativamente bem, ileso, em seu 1º atendimento do famoso senhor Calmon, até que tropeça na sugestão seguinte:

-Mas seu Calmon... posso fazer o pedido para o senhor pegar o Rivotril semana que vem. Tudo bem?


Jaiminho, Lúcia e Bráulio olham para o amigo, pois ouviram e esperam o pior. Ele faz aquela expressão típica, que já conhecem, mesclando irritação com incredulidade. Dali, já não pode sair boa coisa:

-Puta que pariu, tá de sacanagem! Lúcia, onde fica a Pague Menos!?


SARQUIS, João Rana Vieira. 02/07/25.

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