SOBRE AMOR, BARCOS E PÁSSAROS


Precisamos lembrar: amor é diferente de apego. Para uns, isso é óbvio. Para outros, nem tanto. O Buda deixou essa diferenciação clara em sua jornada.

Contudo, a ideia implícita (ou explícita) de posse ainda é muito presente no linguajar comum ao se falar sobre relações. Porém, não temos como "ter" ou "perder" algo que efetivamente nunca foi nosso. Tampouco é saudável grudar no outro feito cola, por meio de um afeto sufocante que busca compensar o medo da falta. Tudo em excesso, mais cedo ou mais tarde, gera desequilíbrio, prejuízo e disfunção.

Definir o amor é tarefa impossível. São infinitas as representações e elocubrações ao longo da história, de ordem espiritual, psicológica, filosófica e até biológica, entre outras. Mas o homem tem dessas... de querer circunscrever o indefinível, de valor imensurável, na ilusão egóica de uma previsibilidade ou de um controle racional, cartesiano, para o que sequer obedece a lógica. E, nesse ínterim, acaba por pensar demais sobre o que se é, sentindo menos o que se vive.

Em contrapartida, olhemos para a natureza, que com pureza e simplicidade nos revela verdades atemporais e imateriais.

Uma planta, por exemplo, necessita de ar, sol, água e terra para crescer - os 4 elementos clássicos, diga-se de passagem (o "sol" assumindo o papel do "fogo" aqui). No entanto, se você der muita água a uma planta, apegado e ansioso por seu crescimento, ela morre. Se privá-la dessa mesma água, ela ficará seca, tendo o mesmo fim.

A imagem de um pássaro que visita regularmente a nossa janela, em busca de alimento ou água, é como um bálsamo em dias atribulados. É livre e belo, gracioso em si mesmo. Mas se me prendo em demasia à vista, desejando que meu amigo não se vá ou cogitando trancafiá-lo numa gaiola, isso interessa exclusivamente a mim, não ao pássaro. Preso, ele sofre e não cumpre o seu destino. E é o seu destino em essência de pássaro que, no fundo, nos enche de graça.

Numa relação amorosa, visualizemos um barco navegante. Essa é uma boa metáfora, muito usada no senso comum - "eu tô nesse barco...", "vou pular desse barco..." e etc. Cada um traz em si, em cada metade do barco, seus buracos e pontos cegos. Se eu só olho pro vazamento alheio, provavelmente não atentarei para os meus - o barco não deixará de afundar. Se, por outro lado, responsavelmente faço "minha parte" (o meu lado), mas pretensiosamente ignoro o todo... pimba! Naufrágio do mesmo jeito.

Uma atitude superficial, ingênua e imediatista (pra não dizer "estúpida"), como a de jogar água pra fora do barco, não irá conter a água que entra: com a sensação ilusória de que fizemos algo, afundamos novamente. Se pulo do barco, assumo minha desistência. Se fico e nada faço, afundo passivamente, de modo irrefletido. Perceba que minha ação e não-ação, fundamentais, não podem se dissociar da ação e não-ação do outro, bem como da relação com esse outro.

Talvez o amor seja (ou contenha) essa amálgama equilibrada de Eros e Logos que dá sentido ao universo, como o Yin-Yang. A busca da paz e da fraternidade universal, por exemplo, como personificada pelo Cristo, não exclui a necessidade da espada, tal como no Evangelho de Mateus. 

Se nos direcionamos às ciências, é como se uma experiência profunda de amor contivesse causa-efeito, imprevisibilidade e teleologia ao mesmo tempo, posto obedecer e não obedecer as dinâmicas lineares do espaço-tempo. Como explicar alguém que sonha antecipadamente, sem nenhum conhecimento prévio, com aquele(a) que será o amor da sua vida? Ou a existência incontestável de sonhos premonitórios, em diferentes culturas e momentos históricos? Ou a percepção suprassensorial de pais frente a temores iminentes de seus filhos, separados por milhares de quilômetros de distância? Desse modo, homens de laboratório, sem forçar a barra, sem pseudociência, façamos as pazes: física quântica, física newtoniana e o "desconhecido".

A linguagem da consciência costuma ser lógica, linear, temporal e finita; a linguagem do inconsciente, por sua vez, é metafórica, simbólica, atemporal e infinita. E, se a busca é ser inteiro, e não dissociado, na perspectiva de uma psicologia profunda, devemos nos relacionar com o mundo no sentido de um encontro saudável dessas polaridades. Amar, amar-se e ser amado, logo, é algo divino e, como tudo que é divino, carrega em sua transcendência pólos complementares. As coisas divinas carregam e integram os opostos de modo paradoxal, pois remetem à totalidade, não à divisão.

Divino como as pequenas e grandes vivências de inteireza que temos na vida, quando em sintonia para com nós e para com os outros, de modo concomitante: conexão e delimitação, acolhimento e iniciativa, liberdade e companheirismo - em fluida construção.

E, através dessa ótica, posso perceber o amor nos mínimos detalhes e em diferentes contextos da existência.

Será? 
Não sei.

Assim como Deus, o amor não é daquelas coisas que se precise de fato definir, mas, acima de tudo, sentir e viver.
A liberdade de "estar" em confluência com a liberdade de "ser".
A proximidade que integra e une, mas que não invade.
A coletividade que não exclui a singularidade das diferenças.
A decisão de ficar, mesmo se sabendo que pode partir.
Horizontes ampliados, em conjunto, repousando em limites pessoais, variados.
Algo que se sacrifica individual e coletivamente, em prol de um ganho mais abrangente, nos respectivos níveis.

Mutuamente, muito se dá sem nada pedir em troca e, sem esperar ou exigir (mas, sim, dialogar), tudo recebe.


SARQUIS, João Rana Vieira. 23/05/24.

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