C(o)RÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Seguindo estrada a trabalho, decido parar em Feira de Santana, por volta das onze e meia da noite, já que o tanque compete com as ruas pelas quais passei: vazio que só, na reserva. Nenhum posto aberto pra contar conversa, nesse clima apocalíptico de quarentena por coronavírus, pegada "Walking Dead".
Cada pedágio, uma pegada no dinheiro e tome-lhe álcool-gel. O santinho de Irmã Dulce sobre o espelho do teto, abençoando a viagem e prontamente complementando a desinfecção celestial.
Já é tarde, estou cansado. Cogito parar num hotel pra não incomodar meus padrinhos, mas... porran... hotel... uma hora dessa... nessa loucura que estão as cidades, devem estar com menos funcionários... e se não estiver bem asseado? E mesmo se estivesse, vai saber!? Na infectologia, a gente aprende que "quem vê cara, não vê infecção"... dúvida cruel.
A avenida tá sossegada, sem uma alma penada. Dava pra jogar "golzinho" de boa na Presidente Dutra, na frente do(s) Capuchinhos. Boto o carro na 3ª, na 2ª, na 1ª... penso, reflito: "porra de hotel, ainda tenho de encher o tanque!" Dinda é mãe com tempero, dá nada não.
Adentro a João Durval, ligo para a coroa e... nada. Resolvo ligar pra minha prima, que prontamente atende assustada (em minha família, todo mundo atende "assustado" uma ligação inesperada depois das 22h; não sei se é hereditário, coisa de baiano ou de brasileiro mesmo; aqui não é a Suíça). "Alô?! Hã? Sim... tu tá onde?... viu, tamo saindo aqui."
Tudo beleza, Carol e Dinda abrem o portão, saudações realizadas, Dindo com os cabelos em pé, ressuscitados do sono profundo.
Enquanto isso, vovó (no auge de sua senilidade e do seu peso "filé de borboleta") pergunta "o que tá acontecendo, 'pelamô' de Deus?" e vem me abraçar com um sorriso do tipo "mah é ocê que tá aí, seu moleque malovido!? Uma hora dessa!?". Havia pouco tempo que a velhinha tinha acabado de adormecer, às custas de psicotrópicos e de muita perseverança coletiva. Sinto um "putz" solto pelo ar e não consigo conter o riso, procurando envolvê-la sem tocá-la, seguindo para o banheiro lavar as mãos.
Passado o agito inicial, procedo com o protocolo de praxe de limpar as chaves, a carteira e o celular com álcool-gel. Coloco minha quentinha na geladeira. Não separo minhas roupas agora, num vô mentir (julgadores julgarão).
Sento então à mesa com minha Dinda, que ainda me frita dois ovos e esquenta o cuscuz com a satisfação e prontidão de quem não se importa com o horário, típicas do amor maternal, também intensas (felizmente) em minha mãe. Me recordo do tempo em que vovó me acordava com o cheiro úmido de cuscuz e manteiga derretida pela manhã, nas férias, em sua própria casa, quando dava conta de tudo e mais um pouco sozinha. Nessa época, minha única preocupação era não perder a transformação de Goku em Super Sayajin na TV Globinho.
Ao contrário dos 115 km solitários entre Salvador e Feira, esses minutos passam rápido. Daqui a pouco, já estou imitando vovó e contando estórias tragicômicas dela para Dinda; como no dia em que ela teve a idéia fixa (ou melhor, delírio) de que a roubamos 50 reais - nada grave, contornamos bem:
- Vamos, me devolva. Eu não sou idiota; você vai me dar, Maria José.
- Mas mamãe, a senhora tá mesmo muito caduca... Jesus! Eu juro por Deus que eu não peguei nada seu, mamãe. E a senhora vai fazer o quê com esse dinheiro por acaso, nessa valentia toda?
- Pode jurar, espernear, morrer(!!!), fazer o que for... tu vai me dar meus 50 reais! Eu não sou idiota...
- Tome aqui, pronto. Eu guardei seus 50 reais porque a senhora tá esquecendo onde coloca as coisas. Guarde na sua bolsa e vá dormir, por favor - eu lhe dou uma "onça" para cessar a discórdia.
No outro dia... "puff", saldo zero novamente, como se nada tivesse acontecido.
Num dado momento, conversamos a respeito da pandemia: terreno comum de qualquer bate-papo hoje em dia. Pergunto como está a rotina da cidade, já que Feira foi a primeira a reportar um caso de COVID-19 no estado da Bahia. Ela me diz que os "negócios" estão parados, mas que os barzinhos de bairros continuam cheios. Eu ensaio uma surpresa no olhar, ao passo que ela me confirma que sim e que testemunhou: Toinho, Joca e Nal continuam frequentando o Juracy's Drinks na rua da Concórdia, a 50 metros dali. A diferença é que agora eles vão de máscara. Rio pra não chorar! Puta que o pariu, que cena!
Imagino que, ao canto, mas não menos importante, a carteira de Derby resista ignóbil e firme às cascatas comunicativas, ao som de "lasquinê, pae!" e "desce mais uma, Jura!".
É o retrato do Brasil estampado na esquina, "sambando (sem querer) na cara da sociedade", numa mistura harmônica de obscurantismo, boemia, (des)esperança e amnésia (nesse caso, alcoólica).
O Brasil não é pra amadores; tampouco Feira.
Obrigado, minha Dinda. Essa foi pra você.
#fiqueemcasa
#fechaobarJura
PS: Toinho, Joca e Nal são personagens baseados em fatos reais.
SARQUIS, João Rana Vieira. 31/03/2020.

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