VIRAMUNDO


Há uma beleza singular no caos. Uma beleza um tanto quanto feia, se é que isso existe, que emerge como um renascimento reconfortante diante do desespero. É como uma ordem oculta em seu interior, em busca de reconhecimento e compensação. No princípio, diziam os gregos, antes da criação do mundo, havia o Caos. Logo, ordem e desordem, cosmos e caos, dão significado e ensejam um ao outro.
Nem sempre é possível achar essa beleza, cuja grandeza reside no captar dos olhos do coração, munidos de sensibilidade e fé na vida: focos de luz raiando da escuridão.
É muito fácil admirar o belo clarividente de uma ordem instalada.
Difícil mesmo (e sublime) é achar aquela "flor no asfalto", que confronta o meio e as expectativas alheias, como escreveu Drummond.
Uma vela num jardim florido e ensolarado é apenas uma vela. Mas uma vela no escuro, por menor que seja, tem a capacidade de iluminar boa parte do lugar.
Há 6 anos, formando, eu disse pra mim mesmo e para várias outras pessoas que todas as mazelas da sociedade, mais cedo ou mais tarde, batem à porta de um hospital.
Desde o abandono familiar ao abuso de drogas.
Desde um estupro às inevitáveis consequências de vidas vazias ou robotizadas.
Da pobreza adoecedora à riqueza oriunda de desvios de dinheiro público.
Do machismo e da violência doméstica à permissividade patológica.
Isso é uma verdade atemporal.
Mas também é lá mesmo, num hospital (ou noutros cenários de "guerra"), que com paciência e observação, pode-se enxergar ou criar a luz.
A mesma mãe que chora pelo filho alcoolizado e acidentado, às 3h da manhã, oferta o próprio casaco para protegê-lo do frio, sobre a maca de metal ensanguentada, gélida.
O pai que se irrita com a drogadição e exposição do filho também o acaricia e o ajuda a se virar, na hora de ter sua ferida cuidada.
Os familiares que se enlutam, pelo ente que se foi, são os mesmos que decidem doar seus órgãos para outra pessoa.
O enfermeiro que traz traços de frieza para adaptar-se ao plantão na unidade de Trauma... é quem reserva 2 minutos para perguntar o que aconteceu de fato com seu amigo, vítima de um atropelo ao tentar se matar.
No interno pragmático que procura acalmar firmemente a paciente histérica, surge o zelo de perguntar, de 5 em 5 minutos, se sua lesão sendo suturada está doendo.
O maqueiro cansado, que realiza um vai-e-vem infindável, sempre acha disposição para chegar ao recinto bradando: "atenção, APOIO! Paciente grave, PAE!".
Do irmão mais velho, que tomou pra si a responsabilidade de cuidar do outro, 10 passos estremecidos repousam numa longa e profunda troca de olhares e aperto de mãos. Não há necessidade de palavras.
Na psicóloga que aparece de paraquedas, vem um acolhimento para ser sempre constelado na memória.
Da mãe que quase perdeu seu filho pelo impulso de um transtorno mental, emana a solitude inabalável do amor essencial. Abraça, engole o choro e conforta.
No sofrimento da tentativa frustrada (de quem não conseguiu acabar com a própria vida) emerge o pedido sincero de ajuda.
Lá, onde as cobras dormem, quando tudo parece sombrio, nasce a luz.
Minha psicóloga tem uma frase de Platão, na entrada do seu consultório, que considero fantástica: "As coisas belas são difíceis."
Lá...
No horizonte da existência.
Na alvorada da esperança.
No limite do sentimento.


PS: texto escrito após socorrer um grande amigo, em uma noite fria de Junho.


SARQUIS, João Rana Vieira. 03/06/19.

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