PARA LENÇÓIS, COM ALMA E AMOR
A primeira vez que estive em Lençóis, ainda criança, foi pela excursão de um colégio onde minha mãe lecionava "História". Fui o mascote de um bando de adolescentes afoitos com aquela riqueza natural e aparente liberdade, longe dos pais e da cidade grande.
De lá pra cá, foram inúmeras as vezes que voltei, só ou acompanhado, em busca de paz, contemplação e restauração. Foi lá que, feito uma jovem rã, mergulhando e pulando de um lado pro outro, iniciei passos alegres e confiantes diante de superproteções.
Lençóis foi a "menina dos olhos" do estado no século XIX, apelidada de Vila Rica da Bahia, quando sua descoberta estimulou forte mineração de diamantes na região. Antes, essa atividade se dava principalmente nos arredores de Mucugê, sendo precedida pela exploração de ouro em Jacobina e Rio de Contas, no século XVIII.
Seu nome vem da imagem que os tetos das barracas dos garimpeiros exibiam, por cima da serra, tal qual uma "cidade de lençóis". Outra versão diz que o nome se originou dos lajedos por onde passa o rio, serra abaixo, semelhantes a um lençol bordado.
Em 1973, a cidade foi tombada pelo IPHAN como patrimônio nacional. Formalmente, no entanto, o garimpo só teve fim em 1994, corroborado pelo apelo de preservação ambiental da ECO-92. A partir disso é que passou a ser alavancado o turismo na região, dando ao mundo a possibilidade de apreciar seus verdadeiros diamantes, atemporais e imateriais: sua geografia, história, culinária e sua gente.
Diamante que brilha nos olhos do guia local, com consciência ambiental, receptivo, orgulhoso e defensor de sua terra. Ou então daqueles tantos de fora, dos quatro cantos da Terra, que lá aprendem a preservar e criar raízes. Diamante que permite não soar estranho a mãe alertar, no meio da trilha, sobre a fileira de formigas adiante: "cuidado com elas!". Que se insinua no gingado maroto do bicho-grilo, movendo-se com astúcia entre as rochas e corredeiras, em harmonia com a paisagem. Que é saboreado nas cervejas artesanais, licores, cafés, vinhos, doces e quitutes dos mais variados.
Jóia de empatia e solidariedade de seus habitantes, que se enxergam na alegria ou na tristeza do outro, como na recente enchente local.
Um diamante que, mesmo ainda fluindo mais entre os detentores do poderio econômico, oferece oportunidades mais democráticas e saudáveis de ganho no meio, ao contrário de outros tempos.
Abundância tanta que, não por acaso, faz Lençóis ter dois "aniversários". Em 18/12/1852, foi desmembrada do município de Santa Isabel do Paraguaçu, conhecido hoje por Mucugê, para ser transformada em "vila". Já em 1856, foi elevada à categoria de "cidade" em 20 de maio por uma Lei Provincial. Até então, as duas datas são comemoradas todos os anos.
A cada viagem, sempre levo um pouco de Lençóis comigo, mas também reencontro um lado meu e deixo outros. Saio nostálgico, saudosista, mas revigorado de quem hoje sou. As rochas e seus diferentes minérios, alicerces da terra, me lembram então de Jung e da alquimia, e percebo que um gradual lapidar se processou em mim ao longos desses anos, procurando garimpar e elaborar, entre idas e vindas, tropeços e recomeços, a minha pedra filosofal.
Se não estou bem certo de onde me situo nessa jornada ou do que há por vir, tenho certeza que minha alma revela um retorno a mim mesmo em meio a esse belo vaso alquímico, diamantino.
Gratidão eterna a "Lençóis" por me cobrir com seus mantos de beleza e renascimento. Minha morada é Manaus, minha origem é de Salvador, mas meu coração sempre será lençoense.
SARQUIS, João Rana Vieira. 25/12/2021.
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