O AMIGO

 


Muito poderia se dizer
Embora pouco a definir
Sobre aquele que chamamos "amigo"
Cuja alquimia acausal de vidas
Explosão d'um encanto construído
Repartido
Traz no rosto a alegria
Que outrora levo comigo

Magia que transcende mero encontro casual
Desencontros que blindam seu laço magistral
Tão mais longínquo, tão mais tempo
A amizade revela-se atemporal
À distância, se reconhece
E através dela, se enobrece
"Parece que te vi ontem..." - diz o amigo
Não esquecem, não mentem
Sempre lembram, sempre sentem

Saudade que fica por quem​ foi
Tal qual o céu quando o sol se pôs
Felicidade refletida no sonho do outro
Amigo é pedaço de nós, correndo livre, leve e solto

Juntos, eu e o amigo
Lapida-se o bruto perigo
Ameniza-se a dor de tropeços e feridos
Brisa de um amor sutil e refrescante
No longo caminho a ser percorrido

Estende a mão, concede o ombro
Por que não ambos ouvidos?
Voz que acalenta e conforta
Te acorda!
"Acorda, cara! Acorda!"
Por mais que o orgulho emane do meu peito
Ou que as trevas eclipsem teu farol
Doa-se por nada em troca
E de antemão ensaia abraço em verso e prosa
Com olhares que se lêem em segundos
Poupando todos os idiomas do mundo

Chora seu choro, valente
Também ri seu riso, radiante
Quando até o mais sério tem seu dia de comediante

Há o amigo tagarela e o pouco falante
O ativo e o expectante
Mas todos ouvintes, sem pronto julgamento

Pelos egocêntricos, apenas lamento
Posto o amigo pensar ser um psicólogo nato
Diga-se de passagem, barato
Mas de valor imensurável
Daquilo que minha alma revela
Luz modesta feito chama de vela
Sozinha chega, espantando a escuridão
Sintoniza no ritmo do meu coração
Antiagrega temores e aflições
E trombolisa placas de desesperança

Um bom amigo cura todo o mal
Remédio belo, humano e natural
Que não se encontra em toda esquina

Amigo é feito festa ambulante
Não pense, apenas cante
O canto entoado por anjos contentes
Toda hora é hora
Seja como e quando for
Sem requinte ou deveras frescura
Espontâneo que é uma belezura
Tão mais simples, tão mais maduro
Tão mais amigo

Voltando-se à criança no adulto
Sempre há tempo pra besteiras
Conversa maluca sem eira nem beira
De sopetão, torna-se uma cerveja existencial
Primeira...!
"Quem eu sou?"
Segunda...!
"Para onde vou?"
Terceira...! Saideira...!
"De onde eu vim?"
O amigo desperta o filósofo que há em mim
Permite ser eu sendo você
Semente na estrada para a vida florescer

Tão mais feliz, tão mais pleno, tão mais amigos
Tão paradoxal...
Meu eu diverso que reside contigo
Não me pertence, nem me enche
Me completa
Sempre estando comigo.


SARQUIS, João Rana Vieira. 13/06/2017.

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