A POETISA


Para uma paciente, com gratidão e afeto.


Vômitos.

Esse é o motivo do chamado para uma senhora de seus oitenta e poucos anos.
Vômitos pós-prandiais, geralmente noturnos, há 5 dias. Um pouco de azia aqui e acolá, intermitente, e mais nada.
Dona Elza abre a porta com um sorriso comedido e nos dirige até ela, nossa protagonista.
Repousando, acamada devido a fraturas no fêmur (direito e esquerdo), dona Serena mantém um olhar fixo e penetrante sobre o nada, como se ali não estivesse. Mas lá está, tal como seu nome e, algo pálida, ensaia um "boa noite" vago à minha entrada.
Como portadora de Alzheimer, imersa num mundo particular que desintegra-se aos poucos, a mesma se perde em pensamentos, necessitando da ajuda de Elza para relatar os seus sintomas.
Observo à frente da cama um bonito porta-retrato, que relembra tempos vindouros, de glória, onde a mesma declama um poema de sua autoria em plena igreja. Blusa verde de seda, florida e estampada; calças pretas de lycra; salto; batom; brincos lustrosos e maquiagem à caráter. Estamos falando de uma ex-professora de Língua Portuguesa e Literatura, amante dos livros, versos e prosas.
Mas o tempo chega para todos, às vezes de modo cruel, e com nossa estrela não foi diferente. Demora-se um pouco a perceber que trata-se da mesma pessoa: a da foto e a da cama.
O corpo sempre fala.
Poucos minutos de anamnese e exame físico levam à suspeita de um refluxo gastroesofágico. Nada grave. Sua hérnia de hiato prévia certamente contribuiu para o quadro... aliada, talvez, a um desejo inconsciente intenso de poder expressar-se e liberar-se das amarras de uma cognição comprometida. Ou, quem sabe, como forma de rebelar-se de alguns "sapos" engolidos ao longo da vida. Elocubrações sem tempo hábil de serem postas à prova.
Redijo uma prescrição e realizo orientações para seu problema.
Pergunto sobre sua antiga profissão e com muito orgulho ela discorre sobre a mesma, revelando também sua paixão pela poesia. Peço-lhe que recite algo, caso seja possível, e eis que, de prontidão, daquela senhora apática, versos entonados saem da boca. Versos inteiros: estrofes! A fisionomia se modifica e o sorriso lhe toma o rosto. Fala sobre a beleza, a felicidade e a busca do sentido na vida! Rima! Comete maneirismos! Interpreta e deixa o eu-lírico tomar conta de si. Até que... esbarra no orgânico: "... esqueci o resto!".
A memória afetiva, dizem, é uma das últimas a serem perdidas (se é que são perdidas totalmente).
Não faz mal. Aquilo já valeu a pena, a galinha toda, pra todos nós. Fico fascinado!
Ouso mostrar uma poesia minha e com muito entusiasmo ela aceita. Tento chegar ao nível dela, mas minha memória não é tão boa assim (risos): preciso ler.
À medida que verso (sobre a amizade), ela sorri cada vez mais com os olhos e entorta todo o corpo para olhar em minha direção. Estou sentado na cama ao lado.
Por um momento (um breve momento), não há dor, vômitos, azia, ansiedade, amnésia ou sofrimento. Apenas palavras, empatia e coração.
Finalizo com palmas calorosas de alguém que hoje parece ser tão frágil, evanescente e fugaz (como sua memória), mas que me trata ao ser tratada e que me cura ao ser "curada", tal qual o centauro Quíron da mitologia.
Lidando com alguém portando doenças dessa natureza, deteriorantes, progressivas, é reconfortante ver que, aquilo que a alma revela, não há tempo ou transtorno que apague de vez. É o que nos cabe em essência no final das contas: nossa alma, o amor que vivemos e o que geramos. Vai-se o vento, ficam-se as rosas.
Uma vez poetisa, sempre poetisa.

PS: nomes fictícios baseados em uma história real.


SARQUIS, João Rana Vieira. 30/04/18.

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