BRASIS
Zé Piropo está pensativo e os motivos são bem diversos. No alto de sua casa na favela, ele dispara um olhar taciturno pro mar da Baía de Guanabara. Dali, ele consegue perceber o contraste que é o Rio de Janeiro: condomínios de luxo de um lado, morada de seus mais fiéis clientes, e barracos do outro, compartilhando a mesma vista (apenas).
Hoje, faz 1 ano que sua vó Lucinda faleceu por COVID, aos 58 anos. Ela não teve tempo de se vacinar e acumulou vários problemas de saúde ao longo da vida: obesidade, pressão alta, diabetes e doença cardíaca. Quando o vírus bateu à porta, ela não resistiu. Morreu afogada em ar ambiente, na fila de atendimento de uma UPA.
O sopro de empatia que demonstra em seu dia-a-dia, Zé Piropo herdou dela. Em sua casa sempre cabia mais um, principalmente em dia de feijoada. Foi também por conta dela que demorou a largar a escola, no 3º ano do Ensino Médio, pois senão teria saído muito antes.
Mas não é só a saudade que o incomoda. Seus "negócios" não vão bem nesses últimos meses. Na sua cabeça, ele não é só um traficante, mas um comerciante. Talvez também por isso esteja vivo até agora, após 11 anos de entrada no crime. Outro lockdown ameaçaria ainda mais seus ganhos e ele começa a ficar reflexivo. "Puta que o pariu! Quando é que essa porra vai acabar?" - dizia pra si mesmo. Quando tudo fechou nas ondas anteriores, foi maior o arrego pago aos PMs para que alguns clientes pudessem estar na beira do morro, em busca de pó e erva.
Vendo seu zap, recebe mensagem de Jobson, vulgo "Biriba", um subalterno do crime: "Aê, lek! Dá um saque nesses gringo. O bagulho é louco nos Quebec kkkkkkkk". Em anexos, se noticia que a vacinação no Canadá aumentou em 4 vezes, após anúncio de exigência da vacina para se comprar maconha e bebida.
Algo fica sendo matutado em sua mente, até que se encontra mais tarde com Joyce: prima e amiga, era garota de programa e possuía muitos "contatos" em comum com Zé. Lembrando-se da avó com a familiar, descobre que a maioria dos que não deixaram de comprar droga nos últimos meses era justamente uma "playboyzada" com discurso anti-vacina nas redes sociais, clientes da mesma.
E Zé estudou pouco, mas era inteligente o suficiente para ver a puta hipocrisia e oportunidade que aquilo representava.
No outro dia, o chefe da boca dispara:
- Aê, vou meter o papo reto pra geral!!! Quem não tomar essa vacina vai rodar no morro e os playboy vacilão que vem comprar também vão ter que mostrar a parada do cartão.
- Colé, Zé...!? Que onda é essa? Que cartão, lek? - pergunta Biriba.
- O cartão da vacina aí, do COVID.
- Qual foi, parceiro!? Tô entendendo nada. Quer catar problema pra quê, lek?
- Problema nada, nêguin! Problema é essa porra dessa doença que levô minha véia e arrombô minha boca! Essa merda não vai melhorar tão cedo se esse bando de otário não tomar agulhada. Se os maconheiro e cheirador não mostrar a dose da vacina, vai levar pau e ainda ficar sem o bagulho! Morô?
- Mas parça... o bagulho tá fraco. Se tu lançar essa, aí que nós não vai ganhar nada mermo.
- Quer mandar na minha boca, Biriba!? Quer saber mais do que eu!? Tá fumando cocô!? ... A gente já não fechou o morro por causa da doença!? Pois faz o que tô dizendo e ainda bota na rádio da comunidade! Quem não tomar a vacina vai rodar. O papo é sério.
Cabisbaixo e confuso, Biriba consente:
- Beleza, patrão.
Uma semana depois, em alguma mansão do Leblon, Edu e Flávio, com 19 e 22 anos, chegam à tarde da faculdade de Direito.
Na TV, o jornal exibe notícia sobre o aumento exponencial da vacinação em alguns bairros do Rio na última semana. Seu pai, Carlos Alberto, comenta com tom de deboche e indignação:
- Bando de idiotas! Se vacinando pra dar dinheiro e moral pro regime chinês. Tudo arquitetado por aquela corja de socialista "ling-ling" de olho fechado. Ninguém vai delimitar minha liberdade! Ninguém vai dizer o que eu devo ou não fazer. Esse país é livre! Se a gente vacilar, daqui a pouco tá todo mundo tendo que aprender mandarim.
Mas eis que, surpreso, Carlos observa os filhos portando um cartão e um chumaço de algodão nas mãos. Incrédulo, pergunta ao mais velho:
- Puta que o pariu, Flávio! Que MERDA é essa que vocês fizeram!?
- Sabe, pai... é que... queríamos te falar antes, mas... tavam vacinando lá na facu, aí a gente pensou "pô, mal não deve fazer, né?". Semana que vem vai rolar mó festa na casa do Paulinho, gente pra cacete, muita mina de fora, só gata... ficamos de ajudar a organizar. É melhor tá protegido, né? Vai que essa doença pega mesmo.
Carlos fita os filhos atentamente, com o âmago de seu ser. A cólera toma seu corpo, avermelha os olhos, palpita seu coração e explode na boca, que diz:
- ... SEUS COMUNISTAS!!!
SARQUIS, João Rana Vieira e PIZZETTI, Maíra Costa. 20/01/2022.
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