LANCELOTTI, CAVALEIRO DA ESPERANÇA
São Paulo, como o Brasil, é um lugar de contrastes. Saímos de um calor modo "sauna urbana" de Manaus para adentrar o frio paulista de 16ºC ao meio-dia. E nesta mesma cidade, se nos hospedamos confortavelmente na casa de queridos amigos em Moema, com seus prédios vistosos e imponentes, foi com um breve giro que nos deparamos com o abismo social brasileiro.
Mas falando pela minha geração (do final da década de 80), ao contrário de outrora, em que a desgraça era velada e segregada nas periferias, hoje a "crise humanitária" encontra-se a céu aberto para todo mundo ver: incrustada por entre as avenidas, os parques, as lojas... no andarilho solitário com carrinho cheio de entulhos na Paulista... nas barracas de camping como lar de famílias inteiras... nos que buscam comida e recicláveis no lixo, no meio da efervescência gastronômica da Liberdade... no senhor idoso (muito idoso), com o chapéu surrado e a sanfona velha de guerra, tocando Gonzaga pra ganhar uns trocados e espantar a tristeza.
Mas sempre há, lógico, os que negam ou não querem ver essa crise, bem como terceiros que tentam varrê-la pra debaixo do tapete da "metrópole do mundo", seja pela truculência institucional (representada pela violência da PM e adjacências), pela crítica aos que recusam a desumanização ou pela notória instalação de pedras sob viadutos. Em Sampa, "morar debaixo da ponte" já é um irônico luxo que muitas pessoas em situação de rua não podem ter. A arquitetura higienista materializa a invisibilidade e a obliteração de direitos daqueles que, "se nada são, nada lhes é oferecido."
Felizmente, há aqueles que não apenas vêem, como também enxergam além e resolvem fazer algo a respeito. Em particular, há um idoso de 72 anos, no bairro da Mooca, que entre tantas coisas, é padre e possui sobrenome de cavaleiro: Júlio Lancelotti. Sua luta, no entanto, se trava não no pandemônio da vaidade manifesta, mas no palco sombrio dos esquecidos.
Chegamos 9:30h para a missa que começaria às 10h na Igreja de São Miguel Arcanjo, num domingo de inverno paulistano. De antemão, pudemos observar dezenas de barracas, acampamentos e pessoas nas proximidades da paróquia, onde também funciona parte da Pastoral de Rua da capital. Aquele que precisa procura aqueles que ajudam, o que é óbvio para a mais pueril das cognições. Porém, isso é irrelevante para quem é indiferente ao sofrimento alheio, sedento por higiene social e que acusa a Pastoral de "atrair indigentes, 'cracudos' e aglomeração".
Um grafite com Júlio ofertando comida a um homem envolto num cobertor, remetendo a um "Jesus das ruas", dá o tom filosófico e amistoso do lugar, por meio da imagem de uma foto que viralizou nas redes.
A igreja é bem pequena, discreta, mas ainda assim conseguimos achar 2 lugares nas cadeiras, que logo depois findaram. A simplicidade harmonizava com a limpeza e organização do lugar. Do lado de fora, havia grandes bebedouros para o público em geral. Uma série de imagens religiosas compunham a cena, cada qual em seu lugar.
Pessoas jovens e também mais velhas, de aparência bem diversa, encontravam-se auxiliando a cerimônia, bem como a parte de áudio e vídeo da missa, a ser divulgada no YouTube da paróquia. Às 9:50h em ponto, Lancelotti entra no campo de visão dos presentes e senta ao fundo, no altar, em silêncio, aguardando o horário e o aval da equipe técnica.
Às 10h, levanta da cadeira e põe-se a falar, ministrando a cerimônia. E quando fala, não fala para as talvez 40-50 pessoas que ali estavam, mas para um público muito maior, sem fronteiras geográficas, paroquianas, comunitárias, étnicas, sexuais e, até mesmo, religiosas. A força de sua voz e de seu discurso contrastavam e imperavam sobre a evanescência de seu próprio corpo, invocando o eterno e atemporal. Trouxe em sua homilia, com contexto e teologia pura, uma sincera liturgia de amor e fraternidade entre as pessoas, inclusive dialogando espontaneamente com pessoas em situação de rua que também estavam presentes na missa. Ao final, ainda fez um apelo para as pessoas se vacinarem, esquentando o coração até dos céticos e medrosos.
Júlio Lancelotti não é santo. Um dia, talvez até seja assim considerado. Certamente, possui seus defeitos e fragilidades, como todo e qualquer ser humano. Júlio é feito de carne e osso como todos nós. Mas algo inquestionável, independente de crença e diante da presença viva de seus cabelos brancos e de suas ações, é que sua obra viva inspira avidamente que a esperança da humanidade só pode advir de nós mesmos.
Fome, pandemia, guerras, aquecimento global, miséria, desamparo, pobreza... tudo isso só existe porque somos absolutamente origem e permissivos enquanto humanidade. E se um homem perto dos 80 anos tem coragem e força para se expor de tal maneira, qual a justificativa que nós, cidadãos, jovens, saudáveis, independentes e despertos, temos para nos isentar de tal responsabilidade?
É óbvio e até clichê, mas a mudança que queremos no mundo só começa a partir de nós mesmos. Sem isso, não há salvação, apenas ilusão, conformismo e egocentrismo.
Perdão quando me senti cansado ou desgastado demais. E obrigado, cavaleiro, por me mostrar direta e absolutamente, como nunca antes, que a luta não é só sua, mas de todos nós.
SARQUIS, João Rana Vieira. 24/08/21.

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