ALTO RISCO
Hoje, atendi uma paciente de 46 anos, sem doenças prévias, que veio "apenas" pedir encaminhamento para oftalmologista (necessitava "trocar" os óculos, que já não lhe serviam) e ginecologista. Pela forma como sentou na cadeira, deve ter imaginado que a consulta seria rápida.
Quando questionei sobre o porquê do 2º encaminhamento, me relatou que queria uma avaliação ginecológica "geral", pois havia anos que tinha realizado. Conversa vai, conversa vem, expliquei meu papel como MFC (médico de família e comunidade) e que também poderia auxiliá-la nessa parte. Em seguida, me falou sobre o "preventivo" que fez há muitos anos... "colesterol", "exame de açúcar", "hormônios"... depois, envergonhada, me pergunta se era possível engravidar em sua idade (a paciente não tinha filhos). Digo que sim, já que ainda menstruava regularmente, embora fosse mais difícil nessa fase da vida. A essa altura, pensei que ela estaria preocupada em estar grávida, após alguma relação desprotegida: ledo engano.
Ela me revela então que queria engravidar e que agora estava com alguém que também compartilhava desse desejo. Porém fala também ter vergonha do que os outros poderiam pensar se engravidasse, em virtude de sua idade. Antes, além de não ter o apoio que julgava necessário, pesava muito sobre ela o passado de uma violência obstétrica que sofreu aos 27 anos, numa curetagem por um aborto espontâneo. Vem à mente o médico que agia com brutalidade, batendo em sua perna para abrir "espaço"... a técnica rude, isenta de sensibilidade, adentrando suas entranhas... a dor da perda, nem elaborada, se somando e amplificando-se com a dor do corpo, da agressividade, da falta de empatia... o enfermeiro que segurava suas mãos para conter o debater-se angustiante.
Começa a chorar bastante. Nunca havia relatado isso antes. Ficar grávida significaria poder passar por isso novamente. Pede desculpas por chorar, mas a hora de chorar é essa, após 19 anos de silêncio e silenciamento.
46 anos. Menstruando regularmente. Desejo de engravidar. Violência obstétrica. 1 perda prévia. Sem filhos.
O lado biomédico fica se coçando, pensando desencorajar essa idéia perigosa, pois sabe que uma futura gravidez, caso ocorra, será de alto risco para o binômio materno-fetal. Mas o outro lado, da MFC, do amor e da alma, lembra que a vida é uma só e que há riscos que valem a pena correr quando buscamos realização e felicidade.
Chegamos no meio termo desses lados, explicando os riscos e as possibilidades de atuação, dando vazão aos seus sentimentos e emoções. Prescrevi ácido fólico e encaminhei para avaliação com a psicóloga do NASF, a fim de elaborar melhor o seu trauma e suas possíveis decisões.
Não sei se foi o melhor a ser feito, mas foi o enlace que a razão e a emoção puderam ter naquele momento.
Ao final da consulta, já ia me esquecendo de dar a requisição do oftalmologista; ela que me lembrou.
Levantou e agradeceu "por tudo", saindo com os olhos marejados de lágrimas, porém mais alegre (e viva) do que quando entrou.
Não há receita de bolo para cuidar de pessoas, pois a vida é por demais complexa e ampla para caber em caixinhas. Almas que se curam sempre são almas que se tocam.
SARQUIS, João Rana Vieira. 24/08/21.

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