RUÍNAS
A 21 km de Manaus, situa-se a discreta vila de Paricatuba, localizada no município de Iranduba. Seu nome deriva de “paricás”, erva alucinógena utilizada em rituais dos povos indígenas da região, e de “tuba”, que remete a "grande quantidade".
Com uma paisagem privilegiada às margens do rio Negro, a vila tem como principal ponto de atração ruínas de uma obra construída em 1898, que passou por diversos usos e projetos ao longo do tempo: desde uma hospedaria para imigrantes italianos (nunca usada como tal), passando por um instituto agrícola-industrial (formador de jovens, preferencialmente indígenas, nas artes e ofícios), até seu último fim como um hospital-colônia para pacientes com "lepra" (hanseníase), chamado à época de "leprosário".
Apesar da riqueza histórica e natural do lugar, bem como do interesse corriqueiro de visitantes, o local encontra-se abandonado pela ordem pública, sem guias, referências ou orientações claras, com alguns pontos em seu interior apresentando lixo acumulado.
Mas, embora num primeiro momento aquele descaso gere incômodo, através do passo lento e observador daquilo que foi, torna-se possível a assimilação daquilo que é e que sempre será. A natureza, em particular a vegetação amazônica, com toda sua biodiversidade e frutificação, entre jambeiros, samambaias, colunas e resquícios de azulejos portugueses, traz a sublime graça de retomar o que lhe é de direito.
O livre verde e suas raízes, que ali estavam há séculos, com leveza inabalável se insinuam. Impõem-se sobre a alvenaria sólido-cinzenta, triste, por entre as frestas e as portas de um passado recente, polimórfico e sempre com algum grau de controle social, marcado por esperanças, projetos de vida, epidemias, incongruências políticas, exploração e exclusão.
O contraste único do lugar, de algum modo (e paradoxalmente) possível pelo próprio descaso público, nos faz pensar sobre quem fomos, quem somos e para onde iremos, singularmente ou como coletivo humano histórico.
Nos dias turbulentos que passamos, em meio a uma crise sócio-ambiental, se o que era fato até pouco tempo nos mete medo, dúvida ou alguma angústia, aquilo que hoje é, com suas singelas e belas discrepâncias, de algum modo nos põe a refletir sobre o que é inato e eterno em nós mesmos e no mundo. Um olhar para fora que nos remete pra dentro, logo, também tem o poder de nos redimir.
Perceba então que, com silêncio e alguma observação, é possível mergulhar nessa viagem profunda que nos conecta e reconecta. Se o verde purifica as ruínas e assim o percebemos, também podemos ser levados a perceber as ruínas em nós, em busca de ressignificação e reconstrução. Uma experiência que possui adjacências com os próprios rituais indígenas, por exemplo, tais quais os que usam os "paricás".
Como disse Jung: "só aquilo que realmente somos é capaz de nos curar."
Proteja a Amazônia. Proteger a floresta significa proteger a si mesmo: todos estamos conectados.
SARQUIS, João Rana Vieira. 24/04/2021.
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