JUNG: ENTRE DOIS RIOS



O Encontro das Águas é um dos principais cartões postais do Amazonas, em Manaus, onde os rios Negro e Solimões convergem por cerca de 6km até tornarem-se um só, o rio Amazonas.
Esse achado típico só é possível em virtude das características diversas e opostas dos mesmos em termos de composição, temperatura, velocidade e acidez. Mas suas águas fluem e se misturam até a fusão na imensidão do oceano.
Simbolicamente, podemos imaginar os dois rios como as polaridades que nos compõem: consciência e inconsciente, yin ("feminino") e yang ("masculino"), natureza e espírito, corpo e mente, individual e coletivo, racional e irracional, sombra e persona.
Ilude-se quem julga ser soberano das próprias ações, achando que tudo que faz, percebe, pensa e sente está sob o controle consciente e racional. Para a psicologia analítica, nosso inconsciente é como a enorme e submersa parte de um iceberg, preenchido por conteúdos pessoais e coletivos, de onde o ego (centro da consciência) provém. O centro e ao mesmo tempo a totalidade da psique é representado pelo Self (Si-mesmo), a essência do ser, cuja realização no plano da realidade recebe o nome de "individuação" (diferente de "individualismo"). O inconsciente manifesta-se por meio de sonhos, sintomas, sincronicidades, mitos, entre outros aspectos, caminhando para a autorregulação do todo.
O objetivo da análise, nesse sentido, é que o analista auxilie o analisando a conduzir seu próprio barco na melhor navegação possível diante dos opostos, para se realizar e encontrar a si mesmo. Banzeiros, ventanias, tempestades e "doenças", de um rio ou de outro (e compensando-se mutuamente), quando vivenciados e ressignificados, insinuam-se como oportunidades de aprendizado, conscientização e de retomar o próprio caminho, por levarem ao autoconhecimento e à integração do oculto que reside em cada um.
O mais importante para o navegador, no entanto, não é chegar ao destino final ou a um nível de "perfeição" (este último um objetivo neurótico e impossível)..., mas sim a jornada da busca de significado e totalidade, ao se permitir viver uma vida que realmente me faça sentido. A singularidade diante do universal: tornar-se oceano.


SARQUIS, João Rana Vieira. 16/11/2021.

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